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O gênero da música

O Gênero Da Música

Apesar da música ser um substantivo do gênero feminino, o mercado musical é masculino, tanto na palavra, quanto nas oportunidades e na distribuição de rendimentos. Percebendo isso, o grupo UMA, formado por três mulheres, Thayana Barbosa, Janaina Fellini e Nani Barbosa, resolveu discutir esse cenário desde o início de seu processo criativo.

o-genero-da-musicaMulheres presentes

Em busca de retratar as questões relacionadas ao “gênero da música” não apenas nas produções, como também na própria equipe do projeto, todos os clipes lançados pela UMA em 2020 foram produzidos e dirigidos por mulheres artistas.

Segundo Nani Barbosa, o grupo pensou, conversou e chegou em cinco nomes de mulheres que admiravam e achavam que teriam a ver com a proposta. Anná, Tarita de Souza, Rhaissa Bittar, Paola Ribeiro e Mariana Degani foram as escolhidas para auxiliar com sua expertise em artes visuais, canto e composição.

Como resultado, há uma poética abstrata repleta de sentidos, envolvendo símbolos, ancestralidade, cosmo e cenas cotidianas. Cada profissional teve total liberdade para propor com qual canção queriam trabalhar e qual linguagem gostariam de trazer para o clipe.

“UMA vem bastante no sentido de totalidade, união, uno, una. A busca por completar-se a partir da outra, construindo um lugar de escuta, de carinho, de alteridade”, explica Janaina Fellini. Esse estilo de produção intimista permitiu que as artistas trouxessem elementos de seu olhar pessoal nas gravações.

Além disso, as integrantes utilizaram seus próprios celulares para filmar em casa. Como por exemplo, as cenas do cotidiano no clipe “Corre e vem ver”, ou pelo Zoom no clipe “Leve”.

Mas também foram captados momentos externos, como o da bailarina Caroline Zitto no clipe “Carmim Manchado”, da Chapada dos Veadeiros e dos prédios do centro de São Paulo no clipe “Alma Inquieta”.

Até agora foram lançados quatro clipes, que podem ser conferidos no canal do grupo no Youtube. “Cada um possui uma estética muito própria, mostrando a cara dessas artistas. Estamos muito felizes, tem sido um processo bonito”, explica Nani.

A importância do diálogo

Iniciativas que priorizam o universo feminino na produção e no diálogo com o público são essenciais para gerar representatividade no mundo artístico. Além de, claro, oportunidades profissionais. Afinal, de acordo com a pesquisa publicada em 2018 no DATA SIM, em parceria com o WME, 68% das mulheres já sentiu que seu gênero afetou seus empregos na indústria da música.

Quanto a isso, vale também se atentar ao fato de que, no Brasil, segundo relatório divulgado em 2020 pela UBC (União Brasileira de Compositores), apenas 9% do rendimento total distribuído é para mulheres.

Por conta dessa e outras problemáticas relacionadas à mulher, o grupo UMA busca dialogar com o público de todas as formas possíveis. Como, por exemplo, nas seis lives no canal do Youtube. Sempre com muita liberdade de opinião, o foco é abrir o caminho do autoconhecimento e do papel da arte nessa jornada, expressando a música feminina na história e validando as qualificações das funções exercidas pelas mulheres na área.

Sem tabu, as lives abordam temas muito importantes, como desigualdade de gênero na música, mulheres no cárcere, mulheres em situação de vulnerabilidade, saberes ancestrais femininos e masculinidade saudável. 

[Dica da Cult: se você curte discutir sobre esses temas com muita sinceridade, vale a pena conferir o post que fizemos sobre Maternidade Compulsória. Algo extremamente importante, mas que, infelizmente, não é sempre discutido.]

Eterno aprendizado

Para Thayana Barbosa, a arte é um conhecimento sem fim, há sempre algo novo para aprender. Nesse sentido, segundo Nani, o impulso criativo traz intuição e reconexão. “Pensar no coletivo, estar junto para que ninguém se sinta só diante das transformações e dos desafios que estamos passando é a nossa maior vontade neste momento”, explica.

Com o intuito de criar essa importante relação com o público, o UMA buscou suas raízes profundas para compor as músicas. Dessa forma, as artistas contam que passaram por mudanças positivas no processo e torcem para que as outras pessoas também sintam essas transformações.

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Quanto ao investimento público nos artistas, Thayana Barbosa afirma que “podemos esperar muita luta da classe artística”. Pois, para ela, cada edital ou verba destinada à cultura tem sido à base de muito grito e mobilização. Acima de tudo, será preciso “ficar em cima de todos os poderes públicos para garantir o mínimo de dignidade para a classe”.

Persista no sonho

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Caso você também queira trabalhar com arte, a Thayana aconselha ir atrás do seu sonho. Portanto, conheça os prós e os contras da profissão e avalie se terá condições emocionais para viver a instabilidade que ela pode proporcionar.

O mais importante é diversificar e ser capaz de realizar diversas atividades para que nunca falte trabalho. Além disso, não espere o telefone tocar convidando-o para um grande projeto: coloque em prática suas próprias ideias e não deixe de apoiar as iniciativas do próximo. 

Nesse cenário de mudanças positivas e negativas no mercado musical, os artistas independentes devem aprender a lidar com todas as burocracias, gestão e marketing da própria carreira. “É talvez a parte mais difícil e chata, mas extremamente necessária. Vá em frente, e lembre-se: 10% é talento e 90% é relação”, finaliza.

[Mais uma dica da Cult pra você que quer falar mais sobre o universo feminino: confira entrevista que fizemos com Vanessa Soares, sócia da Movimentar Produções, que prioriza em seus projetos questões de gênero, além da divulgação e estudo da cultura afro.]

Não se esqueça de conferir esse trabalho incrível e nos contar tudo que achou! 

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Redação: Thábata Bauer

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