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Quem foi… Ou melhor: Quem é Paulo Freire?

Quem Foi… Ou Melhor: Quem é Paulo Freire?

Para infelicidade da maioria dos brasileiros, vivemos em um país que não dá bola para educação, pesquisa e ciência. A pandemia demonstra, de maneira trágica, o que acarreta não haver investimento (não são gastos) nessas áreas.

O Ministério da Educação, uma das principais pastas do país, não possui direção, políticas consistentes e é submetida a diversas situações constrangedoras, já que o encarregado se preocupa em falar bobagem ao invés de trabalhar de maneira competente, o que é uma contradição para um governo que se dizia composto por técnicos escolhidos meritocraticamente. Aham.

Assim como elegeram “comunismo, Cuba e as vacinas” como grandes inimigos da nação, elegeram Paulo Freire como responsável pela má qualidade educacional do país. O ex-patrono da educação brasileira, reverenciado em dezenas de países do mundo, especialmente nos amados pela classe média daqui, é odiado por milhares de pessoas que nunca leram nada a respeito dele, apenas reproduzem falas arbitrárias e sem nexo.

Bastasse ter entrado na página do Instituto que carrega seu nome, ou mesmo ter consumido uma matéria séria explicando suas ideias e trajetória, mas talvez isso seja pedir demais. Paulo Freire está longe de ser uma unanimidade. Há, no Brasil e no exterior, muitos estudiosos sérios que apontam falhas, que sustentam críticas negativas e que questionam maneiras diferentes de se educar pessoas. O que não é questionada é a importância do pensador, muito menos as conquistas e as propostas para erradicar o analfabetismo e para buscar um modo diferente de educar, ainda que possa haver problemas na metodologia.

Paulo Freire é nordestino, nascido e formado no Recife. Como nordestino, olhou para os seus e realizou um dos grandes feitos deste país, conhecido como “40 Horas de Angicos”: foi nos canaviais desta cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, que 300 adultos foram alfabetizados em menos de 2 dias inteiros! Tal fato só foi possível graças à ideia de Freire em educar usando as vivências dos alunos, diferente do método tradicional – que ele nominou de educação bancária -, em que todos alunos recebem pequenos depósitos de informações de maneira igual.

De Angicos, virou o Educador do Povo. Recebeu convite do então presidente João Goulart para criar o Plano Nacional de Educação, visando à erradicação do analfabetismo, principalmente dos adultos, que é o foco da atenção do educador. Veio o golpe de 1964, que destruiu o país em todos os sentidos – ao contrário do que alguns fanáticos dizem -, e Freire teve de se exilar. Trabalhou com educação para o governo chileno e foi por lá que escreveu sua grande obra: Pedagogia do Oprimido, publicado em 1968. Um dos principais ideais do autor é a importância de uma consciência política para o fim das relações de opressão aos pobres.

De volta ao Brasil em 1980, lecionou na Puc de São Paulo e na Unicamp. Com vários livros publicados durante as décadas de 70 e 80, e com ampla experiência prática em educação (em outras palavras, um profissional técnico de verdade), tornou-se Secretário de Educação da Cidade de São Paulo em 1989, durante governo de Luiza Erundina.

Tanta bagagem trouxe-lhe o título de Doutor Honoris Causa em pelo menos 35 universidades do mundo. Oxford e Havard utilizam as pesquisas do educador. Paulo Freire é o único brasileiro entre os 100 mais citados no Google Scholar. Quem for à Suécia (depois da Quarentena, por favor) tem a oportunidade de conferir uma estátua do pernambucano, assim como é possível conhecer um espaço de pesquisa dedicado à sua obra na Finlândia. Há centros de estudos sobre sua metodologia na África do Sul, Alemanha, Holanda, Portugal, EUA e Canadá – países claramente comunistas, obviamente.

Ganhou prêmio na Bélgica em 1980 – Rei Balduíno Para Desenvolvimento -, Prêmio Unesco da Educação para a Paz (1986), Prêmio Andres Bello como Educador do Continente da Organização dos Estados Americanos (1992) e um pedido de indicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência para o Nobel da Paz, em 1993.

É natural que a figura brasileira mais debatida no exterior, cujo foco da obra é a educação, virasse patrono da pasta. Retirá-lo para homenagear outro estudioso mais alinhado com o plano governamental, vá lá. Mas não há plano algum, o título foi retirado de maneira arbitrária, supostamente para afastar questões ideológicas – essa que virou a desculpa mais esfarrapada do mundo para destruir qualquer pensamento contrário. Sobre isso, há um dado interessante: na biografia “O Educador: um perfil de Paulo Freire”, do doutor em história Sérgio Haddad, o autor escreve que Freire nunca foi comunista e era severo crítico de regimes socialistas. Veja só! Segundo Haddad, Freire era um humanista. Para o mundo, um visionário. Para o atual governo, um energúmeno. Que cada alcunhador se vista com a própria alcunha.

No nosso canal do Youtube, temos uma Playlist chamada “10 FATOS“, onde apresentamos informações e curiosidades sobre personalidades da cultura e arte do Brasil. Freire terá um vídeo muito em breve, assim que pudermos nos locomover até o estúdio. Mas aproveita e já se inscreve no canal para não perder: http://youtube.com/cultcultura

Fontes:
Podcast Ilustríssima, com Sérgio Haddad sobre a biografia de Freire
https://www.paulofreire.org

Arte: Luiz Carlos Capellano

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