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Este não é mais um post romantizando a maternidade

Este Não é Mais Um Post Romantizando A Maternidade

São muitos os motivos que levam as mulheres a se tornarem mães. Orna Donath, socióloga feminista israelense, afirma em seu livro “Mães Arrependidas”, que a linguagem neoliberal, capitalista e pós-feminista atual contribuiu para que as pessoas pensassem que ter filhos é sempre uma escolha própria. No entanto, a realidade é muito mais complexa. Fique sabendo que este não é mais um post romantizando a maternidade.

Um novo olhar sobre a maternidade

Assim como Donath e outras autoras que abordam o tema, a atriz Karla Tenório lança um novo olhar sobre a maternidade em sua peça “Mãe Arrependida”. O nome pode parecer assustador, mas trabalhos como esses são importantes para olharmos a maternidade de forma diferente, mais realista.

É muito importante que as pessoas parem de idealizar o papel da mãe. Afinal, para Karla, uma das principais causas do arrependimento materno é a idealização destruída após o nascimento. Segundo ela, é nesse momento que “a mulher cai num buraco, sozinha, abandonada pela sociedade machista e patriarcal. Ela se vê perdida, se afastando do seu próprio propósito de vida”.

No começo, pode parecer estranho quebrar estereótipos enraizados. Ao contrário de alguns pensamentos retrógrados que, aos poucos, conseguimos questionar, o cansaço e arrependimento das mães parece passar sempre despercebido. Espera-se que essas mulheres sejam perfeitas, dignas, guerreiras, responsáveis e que amem incondicionalmente. Ou, como resume Karla, “virem a Virgem Maria”.

Em um mundo onde as pressões para a reprodução começam ainda na infância, nem sempre as mulheres se perguntam se ser mãe é realmente uma escolha ou apenas um caminho pré-definido.

A trajetória de uma (quase) mãe

Quando crianças, as meninas são sempre presenteadas com bonecas, enquanto os meninos ganham carrinhos, bolas ou qualquer outro brinquedo que incentive sua autonomia pessoal e profissional.

Muitas mulheres engravidam sem refletir realmente sobre as consequências desse ato. A maternidade se torna o único destino possível, uma obrigação. Nesses casos, as mulheres deixam-se levar pela corrente, resultando em uma “decisão passiva”, como Donath prefere chamar.

Karla explica que, depois de crescida, chegam as pressões da sociedade. A mulher vai ficando mais velha e vê todas as suas amigas tendo filhos. Com isso, passa a acreditar que precisa tê-los também ou não terá espaço no mundo, gerando enorme sofrimento. “Por isso, minha peça fala sobre a escolha e a coragem de também não escolher ser mãe”, afirma.

Experiência pessoal

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A atriz conta não ter refletido muito sobre a decisão de ser mãe. Hoje, lamenta não ter tido conhecimento o suficiente para entender que a maternidade não era o caminho ideal para si. “Se pudesse voltar atrás, jamais teria ficado grávida”, confessa. Daí a importância do movimento feminista para a conscientização dos indivíduos, o qual, na época da gravidez de Karla, era tímido em relação à maternidade.

“Eu tinha a crença de que para ser uma mulher legitimada, precisaria completar essa etapa e me tornar mãe”. Karla desabafa e enfrenta as reações surpresas das pessoas: “Elas entendem que isso desvalida a existência dela. Mas não tem nada a ver“. A atriz explica que, apesar de amar a filha, odeia ser mãe, pois “é trágico, cruel, agressivo e injusto”. Ao se ver obrigada a abrir mão da própria vida, sem poder ter suas necessidades atendidas e sem tempo para si mesma, percebeu que havia caído numa cilada.

Além das questões apresentadas por Karla, algumas pessoas são coagidas pelo cônjuge a engravidar, normalmente sob ameaça de divórcio ou outras intimidações. De acordo com Donath, constantemente, religião, Estado e grupos reacionários da sociedade utilizam sua influência para persuadir mulheres a se tornarem mães.

É muito comum que, em meio a esses discursos, esteja presente o problemático “relógio biológico”, o qual, segundo Karla, não é real: “O que existe é pressão social. A vida inteira sendo doutrinada para isso, é quase impossível não ceder. Eu não consegui. Mas admiro muito as que conseguem. Chamo essas mulheres de ‘maduras'”, explica.

Prevenir

De acordo com a “Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher”, 46% dos nascimentos no Brasil não são planejados ou desejados. Nesse cenário, quase a metade das gestações no Brasil e nos Estados Unidos não estavam nos planos, mesmo após mais de 50 anos da invenção da pílula anticoncepcional, que, supostamente, permitiu maior liberdade às mulheres em relação à maternidade, contribuindo para a redução nas taxas de fecundidade.

A burocracia em torno da laqueadura também é uma forma de controle sobre o corpo das mulheres. Segundo a Lei nº 9.263, que trata do planejamento familiar, é permitida a realização do procedimento por mulheres a partir de 25 anos ou com dois filhos vivos. No entanto, muitas pessoas, ao buscarem a cirurgia pelo SUS (Sistema Único de Saúde), são impedidas de realizá-la, muitas vezes sofrendo preconceito dos próprios profissionais da saúde.

O Projeto de Lei 4515/20 reduz de 25 para 20 anos a idade mínima para que brasileiros – homens e mulheres – optem pela esterilização voluntária. Além disso, o texto prevê o fim da exigência atual de o interessado ter pelo menos dois filhos vivos para tomar a decisão, caso não tenha a idade mínima.

Se o projeto for aprovado, o procedimento também poderá ser realizado durante o parto, contrariando a Lei atual, que só permite essa situação se a mulher tiver se submetido a sucessivas cesarianas anteriores.

Remediar

A burocracia em torno da laqueadura pode ser considerada um dos caminhos que levam ao aborto induzido. Afinal, segundo o Ministério Público em 2018, ainda que a interrupção proposital da gestação seja proibida, 1 milhão de abortos ilegais ocorrem todos os anos no Brasil.

No Brasil, o aborto só é permitido em casos de estupro (até 22 semanas), risco de morte para a mãe e/ou o bebê e fetos com anencefalia. No último caso, trata-se de um direito conquistado apenas em 2012, em uma decisão do Supremo Tribunal Federal.

Para formular uma opinião racional sobre o assunto — já que moramos em um país laico e o aborto é, antes de tudo, uma questão de saúde pública — é necessário levar em consideração uma tabela formulada pelo Ministério da Saúde em 2002. A pesquisa apresentou a taxa de falha de treze métodos contraceptivos, de acordo com a quantidade de gravidez por 100 mulheres no primeiro ano de uso, mostrando que nenhuma das alterativas é completamente eficaz.

Saiba mais sobre o tema “Aborto” aqui nesses 3 vídeos do canal da Cult Cultura: Aborto: Descriminalização x Legalização, Análise sobre o documentário “Aborto”, da HBO e O brasileiros aprovam o aborto?

Instinto materno?

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Logo no início do espetáculo “Mãe Arrependida”, é possível confrontar a questão do “instinto materno”, que, a essa altura, você, leitor, já deve ter percebido que não existe. A filósofa feminista Elisabeth Badinter afirmava, em seu livro “Um amor conquistado: o mito do amor materno” (1985), que as mães exercem a maternidade de formas muito diferentes, às vezes até opostas. O fato de haver tantas mulheres childfree, que lutam para sustentar uma postura que vai contra o ideal da “Virgem Maria”, também comprova a inexistência do instinto materno.

Frases como “isso é egoísmo”, “quem vai cuidar de você na velhice?” podem até diminuir (um pouco) com o tempo. Mas, não há como desviar dos olhares de espanto a cada vez que essa decisão é compartilhada. Especialmente na família.

A autora ainda observa que, já na década de 80, eram cada vez mais numerosas as mulheres que evitavam ao máximo não só as tarefas domésticas, como também as maternas. Quanto a isso, nota-se que a “mãe arrependida” da peça parece lutar contra seus sentimentos ambíguos, ora de amor, ora de arrependimento, ora de desespero.

Segundo Karla, é muito importante liberar os sentimentos negados de frustração, medo e dor, que geram culpa, impossibilitando a mãe de exercer uma maternidade verdadeira e original. A atriz defende que “filhos de mães imperfeitas lidam muito melhor com a realidade”. Dessa forma, a maternidade deve ser fruto de uma escolha real, com conhecimento e sem idealizações.

As nuances da maternidade

A personagem de Karla Tenório se doou inteiramente à filha. Em meio a um amor que liberta e, ao mesmo tempo, aprisiona, a mulher vive constantemente aflita com a necessidade de proteger a criança de qualquer perigo. Agora sua vida estará eternamente atrelada a outro ser. No desenrolar da apresentação, esse ciclo se repete, passando de geração a geração.

Assistir a uma peça de teatro online é uma experiência muito diferente. No início, confesso não ter acreditado que as apresentações virtuais poderiam transmitir a mesma emoção do presencial. Mas, com a atuação de Karla, foi possível visualizar toda a teoria que adquiri com as leituras sobre o tema.

Os assuntos abordados na peça vão desde as mudanças que chegam com a maternidade até os estágios mais avançados da questão, como o infanticídio, por exemplo. Tudo é feito com muita sinceridade, livre de estereótipos e convenções sociais. Pode ser incômodo, mas é necessário tocar no assunto. E qual a melhor forma de fazer isso senão por meio da arte?

Não deixe de conferir o trabalho incrível de Karla Tenório na peça “Mãe Arrependida”, que está em cartaz por videoconferência via Sympla Streaming, no Zoom. A peça acontece todas as segundas, terças e quartas até 16 de dezembro, às 21h. Apresentações extras nos dias 6 e 13 de dezembro, às 19h. Clique aqui para comprar os ingressos a partir de R$ 30.

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Redação: Thábata Bauer

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