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A Pandemia no Cinema Mundial

A Pandemia No Cinema Mundial

A pandemia do Covid-19 vai modificar praticamente tudo o que há neste mundo. Talvez não mude a ignorância de algumas pessoas, mas aí é torcer para que milagres existam e aconteçam. Quem está passando por profundas modificações é o mercado cinematográfico. Com bilhões de pessoas em casa, os serviços de streaming explodiram em valor de mercado e número de assinantes.

Com tanta gente consumindo diversos produtos audiovisuais, dentre eles centenas de milhares de filmes, fica a pergunta: o que é cinema? É arte ou entretenimento? Crítica ou público? Questões antigas sobre as quais não tenho a menor intenção ou competência em debater. Para isso, existe farta literatura e o trabalho de pessoas como a Bárbara Demerov para te ajudar (veja entrevista que fizemos com ela aqui)

A questão que trato como relevante para o debate no momento é: só pode ser considerado cinema o filme que passa nas telonas, nas salas convencionais? A Netflix, o maior serviço global de streaming de séries e filmes, já despertou a ira de muitas pessoas por conta do seu modelo de negócio e há muita contradição entre os discursos pró cinema tradicional e pró cinema (filmes) via streaming.

CINEMA: uma experiência coletiva

Um dos grandes opositores ao modelo Netflix é o aclamado diretor Christopher Nolan (Amnésia, trilogia O Cavaleiro das Trevas, A Origem). A empresa de streaming faz lançamentos de seus filmes dentro de sua plataforma e de maneira simultânea nas salas de cinema. E essa é uma política estúpida, de acordo com o diretor, por não trazer benefícios às salas de exibição. Cita ele, por exemplo, a Amazon, concorrente da Netflix, que mantém nas salas convencionais os filmes por 90 dias e só depois os disponibiliza em sua plataforma.

O conceito defendido por Nolan e apoiado por grande parte dos seus colegas é que cinema deve ser uma experiência coletiva. É o grande apelo comercial do cinema por décadas, o de sair de casa, escolher um filme (agora você compra ingresso com semanas de antecedências), ir com xs parças, com x bff, com a família brasileira, cônjuge (me seguro para não escrever como foi dito pelo Ministro da Justiça) ou mesmo sozinho. É dos rolês preferidos da galera, independentemente do tipo do filme.

Só que ir ao cinema é uma experiência coletiva estranha. Geralmente vamos acompanhado de quem conhecemos, como vamos a um restaurante, show, parque, com a diferença de que a maioria não vai ver um filme com a ideia de fazer amizade. Você já foi ao cinema querendo fazer amigos? Em outros locais provavelmente não, mas pode acontecer. Converse no cinema e o máximo que pode acontecer é você ouvir um sonoro “shiuuu”. Tudo isso para dizer que defender a sala de cinema como uma experiência incomparável por conta da coletividade me parece exagerada. É mais plausível defender pela experiência emocional que a qualidade técnica do cinema proporciona. Isso sim é sedutor. Sua televisão, tablet, celular podem ser lindos, mas não se equiparam a uma sala de cinema.

Há certo romantismo, por parte de quem faz filmes, em lançá-los no cinema. E deve ser incrível quando se consegue. Voltando ao Nolan: há um componente importante com relação às salas de exibição. O dinheiro.

Sétima arte e o dinheiro

Diretores como o Nolan trabalham com orçamentos gigantescos. Natural, portanto, que defenda a fruição convencional nas salas de cinema. Filmes que tenham exibição global e sucesso de público faturam milhões (hoje em dia há listas com filmes que faturaram bilhões). Mas isso é possível em Hollywood, é um cenário da indústria norte-americana de cinema (lembrando que há filmes americanos independentes). Em outros países, a realidade é bem mais modesta, ainda que haja bom movimento comercial.

Provavelmente o Nolan deve saber que um ingresso inteiro no Brasil compra uma assinatura mensal para mais de uma pessoa em praticamente todos serviços de streaming disponíveis (indico que você assista ao vídeo da Carol Moreira sobre o tema). Ir ao cinema é caro em países como o Brasil.  Além disso, a maior parte das salas pertence a poucas redes, o que faz com que a oferta de produtos seja distorcida. Quando saem esses blockbusters dos grandes estúdios norte-americanos, os mesmo que financiam os excelentes filmes do Nolan, eles chegam a ocupar 80%, 90% das salas disponíveis por semanas, o que gera reclamações como a feita pela equipe do filme “De Pernas Para o Ar 3”, de não haver cota máxima para filmes estrangeiros ou americanos, na verdade.

A questão tem a ver com distribuição. Obviamente, os estúdios possuem influência com seu poderio financeiro, mas há muitas camadas para se discutir. Cada país possui sua particularidade, só que salas de cinema, dinheiro e Hollywood são substantivos intimamente ligados. Há muito mais, a meu ver, na defesa dos grandes diretores pelas salas de exibição do que apenas a preferência e o romantismo.

A questão relacionada à distribuição é sensível. Me remete ao emblemático caso da indústria fonográfica que tentou, a todo custo, parar a música em formato digital e acabou minguando de maneira espantosa. Os streamings ameaçam as salas de cinema, assim como o digital ameaçou e modificou radicalmente o mercado editorial, que teve que se reinventar (na verdade está sobrevivendo, aqui e ali, ainda se reinventando). Então a grita é grande. Como também é verdade que os serviços de streaming têm potencial de se transformar em grandes monopólios de produção e difusão de produtos audiovisuais, o que não seria bom para ninguém. E aí? Quem define o que é cinema? 

Hollywood e os vícios de mercado

Outro grande diretor, Steven Spielberg, declarou que filmes como os da Netflix, que ficam simbolicamente uma ou duas semanas nos cinemas, não devem concorrer ao Oscar. Bom, para concorrer ao cobiçado prêmio é necessário que o filme seja exibido em salas de cinema. A Netflix deixa um tempo pequeno em exibição para comprovar que passou e vai lá tentar ganhar uma estatueta.

Isso parece uma briga de quinta série. O que vejo como problemático é a obsessão pelo Oscar. A empresa de streaming tentando dar um jeitinho para concorrer porque o prêmio é apenas para o cinema que passa em salas de cinema. É um prêmio para o mercado interno norte-americano, tanto que apenas neste ano de pandemia, 2020, que o primeiro filme não falado em língua inglesa ganhou na principal categoria. Concorreu, aliás, com “O Irlândes”, da Netflix, dirigido por Martin Scorsese, que falou que os filmes da Marvel não são cinema (leia esse texto da Revista Piauí).

O Oscar, como a face pomposa de Hollywood, há pouco tempo foi questionado pela falta de diversidade. Vimos o movimento #MeToo revelar a figura doentia de Harvey Weinstein, o todo-poderoso da indústria cinematográfica dos EUA; atrizes/atores negros ignorados em premiação e vários outros problemas.  O mercado americano possui seus distribuidores e não tem a ramificação de produção como os serviços de streaming, que atuam em vários países, forçando a qualificação em profissões técnicas da cadeia do audiovisual (veja aqui a entrevista que fizemos com Camila de Oliveira, diretora de fotografia). É tudo muito fechado o que há naquele pedaço de mundo.

Streaming é o futuro do cinema?

Não sei. A questão é que, no momento, é o jeito de se consumir filmes, pois, ao que parece, não se pode nominar cinema. As problematizações apresentadas levam a crer que prefiro um (streaming) ao outro (cinema convencional). Não é o caso. Meu ponto é que deve ter de tudo. Cada um assina o serviço que quiser, vai ao cinema se quiser, vê o que quiser. O fato concreto é que as pessoas estão em casa, os filmes estão com as estreias adiadas e os serviços de streaming crescendo exponencialmente.

Aqui no Brasil, há dois gargalos sérios com relação a cadeia do audiovisual: falta de políticas públicas sólidas e distribuição. Fazer um filme no Brasil é uma tarefa hercúlea. O modelo de financiamento é calcado em leis de incentivo e editais de financiamento, pois não existe indústria. Se alguém te disser que filmes devem ganhar por bilheteria, ria na cara da pessoa, e ria com vontade. Seria ótimo se fosse possível, mas não é. Muito por conta do segundo problema: distribuição. Há poucas salas de cinema no Brasil que não são de redes grandes e as redes grandes trabalham com blockbusters, assim como as principais distribuidoras. As produções brasileiras não possuem capital para concorrer e tem muito filme que não entra nos cinemas. Isso não é exclusividade brasileira, mas aqui existe o sucateamento da Agência Nacional de Cinema (ANCINE) e de políticas públicas culturais, o que piora muito o quadro que já era grave.

Tenha certeza que muita coisa que não entrou nas salas de cinema acabará nos streamings, pois é um dos poucos mercados aquecidos em tempos de pandemia. Ademais, pense no pepino que será para os estúdios realocar todos os lançamentos, produções paradas, contratos, fora que empresas que dependem dos estúdios podem não aguentar o tranco. Streaming não deve ser o futuro do cinema, afinal, nem sabemos exatamente o que é cinema, mas é uma das possibilidades, como mostra essa horrenda pandemia.


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