skip to Main Content

“Texto literário vive da ambivalência”

“Texto Literário Vive Da Ambivalência”

Se tem uma coisa em que a gente mergulhou esse ano foi a cultura alemã. E tudo isso graças aos maravilhosos do Goethe-Institut São Paulo, que nos encomendaram uma série de vídeos sobre dramaturgia contemporânea alemã, pra divulgar o evento Dramatik!, que eles realizam na sede do Instituto. Para isso, lemos seis textos de dramaturgos contemporâneos da Alemanha e fizemos a série “Dramaturgia Alemã”, que você pode conferir aqui.

O último texto do ano será “Ladrões”, da dramaturga Dea Loher. Quando pegamos para ler esse texto, há a expectativa de que aborde roubos, furtos ou até mesmo corrupção. A história, porém, é sobre o cotidiano de pessoas comuns, que pode representar o leitor, seus familiares e amigos.

Durante a leitura de “Ladrões”, surgem algumas dúvidas e muitas reflexões (afinal, é dramaturgia alemã!), que poderão ser comentadas no Dramatik!. Além disso, nesse último evento do ano, a conversa terá uma convidada especial: a própria Dea Loher!  Pois é! A dramaturga virá ao Dramatik! no dia 1º de novembro para falar sobre “Ladrões”, a convite do Goethe-Institut. Assim, tivemos a oportunidade de adiantar algumas perguntas para a Dea nos responder, e apresentamos a entrevista completa a seguir:

[Cult Cultura] Em uma das cenas de “Ladrões”, uma personagem diz: “Você acha, que existem muitas pessoas assim. Pessoas como eu, que vivem como se não vivessem. Que passam pelas próprias vidas furtivamente, cuidadosas e envergonhadas, como se nada daquilo pertencesse a elas, como se elas não tivessem o direito, de estar ali. – Como se fossemos ladrões“. Podemos dizer que o título remete a esse grupo de pessoas que vive na inércia, sem perceber o tempo passar?

[ Dea Loher ] Sim, esta citação descreve exatamente a situação das personagens – dos ladrões – na peça. A pessoa que fala, a Ira, deixa passar quase toda vida sem tomar ação para modificar as condições da sua existência. No caso dela, não é inércia, ela não tem consciência da situação. Ela vive num extremo, sem ficar infeliz. Todos estes “ladrões” são bastante frágeis e vulneráveis; não são feitos para viver no sistema de mercado neo-liberal, sob pressão de desempenho e sempre com medo de fracassar.

[Cult Cultura] Talvez seja o estilo da tradução, mas achei muito curioso o texto ter menos de 10 pontos de interrogação. Esse recurso tem alguma função dramatúrgica?

[ Dea Loher ] Um texto literário, ou seja poesia, vive da ambivalência. Pontos da interrogação, evidentemente, não têm ambivalência nenhuma.

[Cult Cultura] Em 2004, em uma reportagem da Folha de São Paulo, foi publicada uma afirmação sua de que “São Paulo vive uma hiperaceleração dos antagonismos, enquanto a sociedade alemã ainda está num estado bastante homogêneo. Sampa se desenvolve explosivamente em duas direções: o ‘superhigh-tech’ das coberturas com helicópteros e a vida que existe na rua, sem segurança social. Isso é um choque para o europeu que visita a cidade“. Essa comparação ainda é válida, ao seu ver? Se não, o que mudou?

[ Dea Loher ] Faz tanto tempo que vivi no brasil, não conheço muito bem a situação de hoje. Quanto à Alemanha: a nossa sociedade virou muito mais heterogênea e diversa nos últimos anos e este desenvolvimento certamente vai continuar, provavelmente até com mais rapidez. Mas comparar uma cidade como Berlim com São Paulo, por exemplo, vai sempre ficar peixinho e baleia…

[Cult Cultura] Partindo da sua afirmação de que “Se o teatro não tratar de questões sociais, ele não tem sentido“, qual o primeiro passo para um dramaturgo brasileiro escrever sobre esses temas, considerando que o Brasil tem passado por graves problemas sociais e políticos?

[ Dea Loher ] Falando do teatro, não sei; li alguns textos de Luiz Ruffato que felizmente são traduzidos para o alemão, e adorei. Ele esta transformando as experiencias das pessoas ordinárias numa literatura densa e forte, dando valor e peso a estas vidas que raramente têm uma voz. Isto para mim é grande literatura.

Programe-se para ir ao Dramatik! Conhecer a Dea Loher:

1º de novembro de 2019
Das 19h às 21h30
Grátis

Goethe-Institut São Paulo
Rua Lisboa, 974

Veja abaixo o vídeo que fizemos sobre “Ladrões”, com curiosidades a experiência da Dea Loher no Brasil:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top