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Curtindo a insignificância adoidado

Curtindo A Insignificância Adoidado

Já repararam na beleza da palavra “Insignificância”? Experimente falar essa palavra em qualquer contexto que seja. Na mesma hora, vão te considerar uma pessoa sábia, erudita, entendedora da vida. Jogue-a, despretensiosamente, naquela brincadeira em que cada participante substitui uma palavra do título de um filme por outra, definida previamente. Até os clássicos da Sessão da Tarde ganham um ar de Mubi: “Minha insignificância matou um cara”, “A insignificância do meu melhor amigo”, “A insignificância azul”, “De repente, insignificância”, “Curtindo a insignificância adoidado”.

Comecei a escrever crônicas em 2013, depois de um visto negado e uma amizade terminada, como conto na orelha do meu primeiro livro. Com parte da grana que eu iria viajar para o país que não me deixou entrar, afoguei minhas mágoas comprando livros. Depois, reparei que só escolhi livros de crônicas. E mais: todos eles escritos por mulheres. Uma das autoras era Clarice Lispector, que eu não sabia que também era cronista. Ler Clarice e outras escritoras brasileiras me incentivou a colocar no papel os meus sentimentos; e escrever acabou servindo como terapia.

Produzi freneticamente nos primeiros anos e dei uma diminuída nos mais recentes. Essa pausa foi influenciada por um trauma de outra amizade (olar, karma) e se estendeu com pautas identitárias urgentes, questões políticas vergonhosas e uma pandemia pra completar. Tentei escrever algumas vezes, mas parava no meio, com a sensação de que qualquer coisa que eu sentisse, não passava de white people problems frente à situação catastrófica global.

Neste ano de 2021, voltei a ler Clarice e, mais uma vez, em um formato de texto que eu desconhecia que ela tinha escrito: entrevistas.  Sempre amei assistir a entrevistas na TV e ler nas revistas. Quando eu participava de processos seletivos, torcia o nariz pra dinâmicas de grupo e amava entrevistas. Nunca pensei em ser jornalista, mas o acaso me levou a ter essa experiência de entrevistar e agora posso garantir que amo esse formato em todos os sentidos. 

Um dos entrevistados de Clarice Lispector foi o escultor Mário Cravo e a primeira pergunta que a escritora fez a ele foi:

Que é que faz de um homem um artista, Mário?

Primeiro, ser essencialmente homem, primeiro de tudo. Segundo, uma dose acima da média de sensibilidade. Terceiro, a capacidade de controlar e orientar em termos construtivos essa força interior. Quarto, querer, como todo homem, transformar o mundo, interferir nele”. 

Fiquei refletindo sobre o que é ser homem (que imagino um sentido amplo, de ser humano). Segui uma linha de raciocínio de que ser homem é saber suas dimensões, suas capacidades, é se reconhecer no outro, é se sentir integrado à natureza. Ser homem é também perceber que não estamos acima de nada, nem abaixo. É ter humildade. É, portanto, existir em nossa insignificância. 

Achei belíssima essa última frase do meu pensamento e, em uma atitude metalinguística, reconheci a insignificância da minha conclusão a tempo de não virar um mantra e de se tornar uma crônica.

Talvez ser homem seja insignificante, sim. O que traz significância, na realidade, são os momentos que vivemos, os encontros que nos permitimos, os inícios que arriscamos. Tudo isso não faz ninguém ser homem. Nos faz ser. Apenas. E esse reencontro com Clarice me mostrou um importante detalhe morfológico e filosófico: de que há significância dentro da insignificância.

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Pra quem ficou interessado, o livro que comentei se chama “Entrevistas – Clarice Lispector”, e está à venda na Amazon: clique aqui para ir direto à página!

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Colagem de Thais Polimeni, com imagens do site VisualHunt: Photo on VisualHunt.com, Photo credit: jean louis mazieres on VisualHunt / CC BY-NC-SA, Photo on Visualhunt.com, Photo on Visualhunt.com, Photo on Visualhunt.com, Photo credit: Robert Couse-Baker on VisualHunt.com / CC BY

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This Post Has 2 Comments
  1. Thaís, que lindeza de crônica! Sua sensibilidade está expressa em cada linha. Adorei! Você tem razão sobre Clarice Lispector. Ela é fundamental, não importa se são crônicas, entrevistas, romances ou receitas de bolo. Clarice é alma. Thaís é alma também.

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