skip to Main Content

Semântica do racismo

Semântica Do Racismo

Tive um professor incrível na pós-graduação que fiz no CELACC – Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (clique aqui para conhecer), o mestre e doutor Juarez Xavier, que hoje integra o curso de jornalismo da UNESP, Universidade Estadual Paulista, além de coordenar o Núcleo Negro UNESP para Pesquisa e Extensão.

Ensinou para nossa turma, entre outras coisas, o conceito de mídias radicais, comunicação em grupos subalternizados e questões sobre militância negra. Amante da escola de samba Vai-Vai e torcedor do Corinthians, no dia 20 de novembro de 2019 ele foi vítima de racismo e tentativa de homicídio em Bauru, cidade onde leciona.

Mais uma mancha de sangue – literalmente, neste caso -, na imagem da doente sociedade brasileira. No Dia da Consciência Negra, um militante é chamado de macaco, vai tirar satisfação e quase morre. A história por si só é chocante, no entanto o desfecho, até o momento, me deixou mais embasbacado. Veja: o criminoso foi solto mediante pagamento de fiança, após alegar problemas mentais.

O caso foi registrado como injúria racial e lesão corporal. Racismo é um crime contra uma coletividade e não apenas contra uma pessoa, como é o caso da injúria racial. Acontece que a injúria racial permite pagamento de fiança, ao contrário do crime de racismo, que não só é inafiançável, como também é imprescritível. O caso do Professor Juarez enquadrou-se como injúria racial. Agora, parece correto lesão corporal? É a semântica facilitando a vida de gente sem escrúpulos.

Li algumas matérias tratando o racista como jovem agressor ou suspeito do crime. É ridículo. Temos que dizer as coisas da forma correta: é um racista homicida. É mais do que óbvio que pegar um canivete e acertar algumas vezes uma pessoa é tentativa de assassinato. O caso contou com testemunhas, que ouviram o racista chamando o professor de macaco e ajudaram a contê-lo, sendo que a agressão só não foi pior porque o professor manja de capoeira e se defendeu até ter ajuda.

É uma tristeza. Desde a tentativa de homicídio ao professor Juarez vimos o massacre em Paraisópolis, uma mulher se declarar racista e se recusar a prestar depoimento para policiais negros (leia aqui), o Silvio Santos ser o Silvio Santos (saiba mais aqui) e um número grande de pessoas negar o racismo.

Em 2015, eu já havia me solidarizado com o professor Juarez quando ele sofreu racismo na UNESP. Racistas picharam os banheiros da instituição com ofensas terríveis, registradas pelo professor:

Racismo na Unesp

Com relação à tentativa de homicídio, os advogados do Professor Juarez estão recorrendo para que o criminoso seja corretamente punido. Ouso dizer que,se um negro acertasse um branco com canivete, ele nunca mais sairia da cadeia.

No dia 8 de dezembro, o Corinthians convidou o professor Juarez para acompanhar o jogo contra Fluminense pelo Campeonato Brasileiro. Recebeu a camiseta do jogador Júnior Urso, que sofreu racismo na China e tatuou o símbolo dos Panteras Negras (leia aqui). Uma pequena vitória do militante que, diariamente, precisa se defender de criminosos e do peso das palavras.


Photo credit: Vermin Inc on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

This Post Has One Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *