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Não me ensinaram a ler mulheres

Não Me Ensinaram A Ler Mulheres

Depois que li o título que formulei o achei estranho, parece uma reclamação machista do tipo “não entendo as mulheres, por que elas são assim?”. Mas não. É uma reflexão honesta sobre algo que demora para percebermos.

Eu não gosto de dizer que a pandemia tem um lado bom. Tudo isso tem feito muitas pessoas refletirem, incluindo a mim, mas não vejo como algo bom. É uma consequência de algo terrível, possível para uma parte da sociedade. Enquanto eu reflito em casa, entre outros afazeres, tem muita gente na rua ralando, tem muita gente na periferia sem opção, tem muita gente na rua sem assistência, higiene e refeição. Não há nada de bom nisso.

Feita a observação, minha reflexão iniciou-se antes da pandemia, após ter assistido ao filme “Grandes Olhos” (Tim Burton/2015), que apresenta a história real da pintora Margaret Keane. A artista pintava quadros de pessoas com os olhos enormes, que fizeram grande sucesso comercial nos anos 50, mas que quem assinava era seu ex-marido, Walter Keane. Com ótima lábia e com alguns contatos, ele conseguia vender os quadros, ficar com a fama e, por muito tempo, conseguiu abusar moralmente da artista para que a situação mentirosa fosse mantida.

Esse filme me lembrou um artigo que li anos atrás (infelizmente não o guardei) sobre as pintoras invisíveis da Renascença. Quando falamos sobre o período, citamos meu xará Da Vinci, Michelangelo, Sandro Botticelli, Rafael, etc. Cite uma pintora ou escultora da época. “Mas eu nunca estudei ou desconheço história da arte”. Sim, mas os citados acima todo mundo sabe quem são, conhecendo sobre arte e história ou não. E, para quem estudou sobre, fica a impressão de que só homens produziam arte.

Claro que havia mulheres artistas talentosas, o que não havia era interesse social em prestigiá-las. Se hoje ainda é ruim o reconhecimento profissional para as mulheres, imagina naquela época. [Nota sobre um milagre: lembrei do título do artigo que citei, “As Mulheres Invisíveis na Arte Renascentista” (leia aqui)]

Bom, tudo isso para dizer que, após ver o filme e lembrar do artigo, me dei conta de algo. Sempre gostei de ler, desde pequeno. Estudei em colégio público praticamente a vida toda e, apesar da precariedade, tive a sorte de ter uns 10 professores que lutavam por seus alunos. Li, desde jovem, ótimos escritores: Machado de Assis, Guimarães Rosa (o maior de todos, para mim), Eça de Queiroz, José de Alencar, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Fiódor Dostoiévski, José Saramago. Li até um livro do Paulo Coelho. A única escritora que me lembro de ter sido apresentada foi Clarice Lispector, muito por conta do livro “A Hora da Estrela”, figurinha carimbada nos vestibulares.

Não posso afirmar que tenho a melhor memória do mundo. Não posso dar 100% de certeza que não me indicaram alguma escritora. No entanto, assim que me era indicado algum livro eu ia à biblioteca (jovem: esquece internet, não havia) ou pedia emprestado. Foi assim que conheci a maior parte dos escritores e por isso tenho as lembranças de onde, quando e como li a maior parte dos livros. Em casa, meus pais, e depois minha madrasta, guardavam algumas obras, sendo esta a outra forma de curadoria da minha infância/adolescência. Foi assim que li o segundo livro de uma escritora, “Esmeralda”, de Zíbia Gasparetto. Ela era médium, tinha aquele lance de livro ditado por alguma entidade divina, coisas que não acredito, só que na época vi alguém lendo no ônibus, o livro estava lá em casa e o devorei (tal Caetano a Leonardo DiCaprio).

Não me ensinaram a ler mulheres. Não me indicaram na escola, não me indicaram no cursinho, não me indicaram na faculdade. Fiz publicidade e lembro de Philip Kotler, Ogilvy, Washington Olivetto, Nizan Guanaes, Oliviero Toscani (maluco). A grande figura debatida em aula, citada no trabalho de conclusão do meu grupo, foi Faith PopCorn. Não sei citar outra grande mulher citada em aula na faculdade.

Talvez a culpa seja minha, pois eu poderia ter ido procurar, antes, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Cecília Meirelles, Cora Coralina (cuja frase foi usada na epígrafe do trabalho de conclusão do meu grupo na faculdade), Adélia Prado, Hilda Hilst, Nélida Pinõn, Jane Austen, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Olga Tokarczuk, Elfriede Jelinek, Gabriela Mistral, Grazia Deledda, Alejandra Pizarnik e outras milhares de escritoras, dramaturgas, poetisas, cronistas, filósofas, pesquisadoras e etc.

É uma constatação: não me ensinaram a ler mulheres. O segundo livro de Clarice Lispector que li, “Água Viva”, foi em 2018. Ano passado, li “Um Amor Incômodo”, de Elena Ferrante (presente do amigo Jailson de Almeida (assista à entrevista que fiz com ele aqui), criador do projeto Dicionário de Palavras Engraçadas). Li alguns textos de Martha Medeiros (veja entrevista feita pela Thais), Lya Luft, Marilena Chaui, e meio que só.

Tenho certeza de que o cenário está melhor, apesar do ensino formal ser ultrapassado. Os adolescentes de hoje têm um senso de igualdade e diversidade muito maior do que a minha geração (é minha percepção), os debates pela internet possibilitam que questões de igualdade sejam feitos diariamente e não deixados de lado, como ocorria anos atrás. A geração atual não vai permitir que quadros de desigualdade se perpetuem.

Ter lido poucas mulheres foi culpa minha? Dos professores? Do sistema de ensino? Não sei. Sei que percebi o fato descrito no título e resolvi reparar o erro. A escritora da vez é a Elena Ferrante. Infelizmente, muita gente vai chamar isso de mimimi. Não tem problema. Para cada pessoa desinteressante que você conhecer, há uma grande escritora para te inspirar. Aprenda a ler mulheres.

Saiba mais sobre Margaret Keane: aqui e aqui

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