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Burocracia que Tira Vidas

Burocracia Que Tira Vidas

Arrisco dizer que é impossível catalogar o tanto de pessoas que morreram de alguma maneira por conta da burocracia aqui no Brasil. São narrativas diárias, transtornantes, sobre casos que não parecem reais. No momento, a questão do auxílio emergencial, os R$ 600,00 mensais (que devem diminuir), tem tomado as manchetes dos jornais com casos de pessoas desesperadas que não conseguem acessar o aplicativo para uso do recurso, com pessoas que acessam, mas relatam falhas, com pessoas que, por conta de título de eleitor invalidado, não conseguem garantir o benefício, etc. 

Ao contrário do que muita gente imagina, não é exclusividade brasileira a burocracia. No dia das mães desse confuso ano de 2020, assisti ao filme “Eu, Daniel Blake”, que estava na minha lista há um tempo (ela não existe. Na verdade, vou lembrando e, quando dá, assisto) e cujo diretor, Ken Loach, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2016. Tive uma identificação imediata com a história por ter vivenciado algo semelhante. 

O filme conta a história de Daniel Blake, um carpinteiro com quase 60 anos, que vive em uma cidade do interior da Inglaterra. Em um dia de trabalho, sofre um ataque cardíaco e precisa ser afastado. Sem renda, precisa dar entrada no que conhecemos como “aposentadoria por invalidez”, do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), um subsídio governamental para quem recolheu os impostos a vida inteira e agora precisa de auxílio por não conseguir mais desempenhar sua profissão. Aí começa a saga do protagonista. 

Enquanto tenta dar entrada no auxílio, ele é obrigado a comprovar que está procurando emprego, o que não faz sentido, já que ele não pode trabalhar por recomendação médica, visto que seu coração pode não suportar esforço. O segundo empecilho é gerado pela tecnologia: Daniel não tem familiaridade com computadores, smartphones, apps, sites, etc., e tudo o que precisa fazer, desde a confecção de um currículo, necessita desses aparatos tecnológicos. Ou seja: ele é um excluído digital. O filme é feliz ao mostrar como funcionários públicos (a maioria) não está nem aí para o sofrimento alheio, são frios no atendimento e não há uma ajuda digna para uma pessoa como Daniel. Ele não tem o luxo de ficar um mês sem receber o recurso: contas chegando, precisa fazer compras e ele conhece uma mulher com duas crianças, também com problemas financeiros, e passa a ajudá-los, necessitando ainda mais do dinheiro. 

Mas por que você se identificou com a história? Teve um ataque cardíaco também?” Não, mas perdi minha madrasta, que teve a vida minada pela burocracia. Antes de mais nada, não vou dar spoilers do filme, mas algumas coisas que aconteceram são fáceis de relacionar. 

Minha madrasta se chamava Ângela Gomes de Paula da Silva. Morreu em 2016, curiosamente o ano de lançamento do filme e o ano em que nasceu minha primeira filha, Melissa, que ela pegou no colo uma única vez. Nascida em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, era uma pessoa de gênio difícil, festeira, solidária com as pessoas e que teve uma vida de esforço. Trabalhou sempre longe de casa, pegando ônibus, metrô, carro, por horas, e quem mora em uma cidade como São Paulo sabe como custa pegar, por anos, duas horas de transporte para ir ao trabalho e mais duas para voltar. 

Leo-e-Angela-BurocraciaTinha diabetes e não sei por que raios não cuidou direito. Entrou em um processo forte de depressão (não sei precisar o ano), perdeu vitalidade e, com a diabetes agindo, passou a ter dificuldades para caminhar, a ponto de não conseguir mais trabalhar. Afastada, começou o calvário em busca do auxílio do INSS a que tinha direito… E viveu sua história tal qual Daniel Blake. 

Suas pernas começaram a ter problemas sérios de circulação, a ponto de um médico aqui em São Paulo querer amputar um dos pés dela. Ela foi se tratar em Belo Horizonte, e um médico da rede pública de lá a tratou por meses, até conseguir melhorar a circulação, que jamais voltaria a ser normal. Um de seus tornozelos foi “comido” pela diabetes, ficando uma ferida permanente e a parte superior do mesmo pé tinha ferida aberta que precisava de cuidados extremos para não infeccionar e necrosar a pele.

No ano de 2016, sua irmã, Geralda, ficou um tempo na casa do meu pai para ajudar. Minha madrasta já tinha dificuldades para tomar banho sozinha, comer e fazer tarefas simples. No primeiro semestre do ano, começou uma via crucis de idas a postos do INSS, advogados, médicos e peritos. Lembro de, em um período de dois meses, levar a Ângela e sua irmã em pelo menos 25 lugares diferentes para análises, prova de vida, etc. Nessa fase, ela recebia um auxílio temporário, que, geralmente, precisava ser validado de dois em dois meses e, em alguns, ficou sem receber nada. Pois bem: ela não podia mais trabalhar, afastada por pedido médico, inclusive do mesmo hospital onde trabalhava na época, no bairro da Santa Cruz. Seguidas negativas da aposentadoria começaram a nos cansar, principalmente pelo motivo que sempre davam: diziam que ela tinha condições de trabalhar.

Nas perícias do INSS, quando alguém vai analisar para dar o parecer, eu nunca entrei. Quem acompanhava a Ângela era sua irmã, Geralda. Os comunicados que recebíamos era de que ela tinha condições de trabalhar. Como alguém com depressão, diabetes, sem andar, uns 20 quilos mais magra, sem tornozelo e com uma ferida enorme no pé que precisa ser limpa de hora em hora conseguiria ir trabalhar? “Ah, mas tem muita fraude e é preciso tentar alternativas…”. As fraudes, o governo precisa investigar e coibir, e todas as alternativas dela já haviam se esgotado. Fiquei pensando nas pessoas que não tem filhos, sobrinhos, afilhados ou amigos para ficar dois meses dirigindo para diversos lugares, tentando resolver os problemas. Ela não conseguia mais andar de transporte público, antes que perguntem. Preenchi centenas de formulários, conversei com advogados (alguns bem picaretas), formulei documentos, baixei aplicativo, criei senha, recuperei senha, fiz agendamentos. E quem não tem ajuda? Como faz em um caso desses? Quantos milhões de Daniéis há por aí? 

A última ida a um posto do INSS foi a mais marcante. Ele fica na rua dos Pinheiros, região rica de São Paulo. O pé da Ângela havia piorado e a ferida estava enorme. Para ilustrar, imagine o seguinte: sabe quando você pega uma colher comum ou aquelas de sorvete, mesmo, mergulha no pote e retira uma bola enorme? Pois bem, aquele buraco que fica no sorvete era menor do que o que havia no pé da minha madrasta. Dava para ver os tendões. 

Ela entrou com a Geralda, ficou cerca de uma hora na perícia, e saiu extremamente desanimada. A resposta vem por carta para a casa da pessoa (ao menos na época), mas o perito (homem branco, na casa dos 55 anos e estúpido, como relatou a Geralda) afirmou na cara delas que a Ângela tinha condições de trabalhar. Eu mal conseguia colocá-la no carro sozinho. Ela estava com menos de 50 quilos, cadavérica, com pé que parecia ter levado um tiro de metralhadora, e o sujeito diz calmamente a ela que, sim, ela poderia trabalhar com um pouco de esforço e ajuda. Ainda bem que não fui eu quem a acompanhou na perícia. 

Resultado: passados poucos meses, ela morreu sem se aposentar. Morreu no hospital em que trabalhava, onde tinha amigos. A última vez que a fui visitar, ela estava entubada, inchada, sem conseguir falar e não sei se ela nos reconhecia mais. Eu fui reconhecer o corpo, à noite, naquele cenário de filme, corredor escuro, horrível. Quando a vi, a primeira coisa em que pensei foi como seria importante o perito que a analisou estar ali. 

Dois meses depois de sua morte, meu pai recebeu um comunicado do INSS: a Ângela iria se aposentar por invalidez.  

 

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