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Liberdade

Liberdade

Liberdade, igualdade e fraternidade: lema da revolução francesa que a gente aprende na escola e, pelo menos no meu caso, só fui entender a importância desses nomezinhos anos depois.

Em um país cuja mão de obra foi formada por escravos e imigrantes em busca de uma vida melhor no país do futuro e que trilharam toda uma vida, história e DNA com base na crença de que “o trabalho dignifica o homem” ou, no pior dos casos, “o trabalho liberta”, venho me questionando o que é liberdade. O que é liberdade em um país que até pouco tempo não admitia que existe racismo porque, afinal, somos miscigenados? O que é liberdade para os cidadãos que, em momentos de desesperança, dizem que “somos assim porque não passamos por guerra”, e não se dão conta que a maior parte da população vive uma guerra diária (queria que essa afirmação fosse metafórica, mas tem sido a realidade)? O que é liberdade em um país que não vê “utilidade” nos índios porque, na visão do homem-branco-colonizado-e-colonizador, não produzem nada?

Nosso histórico abomina a liberdade fazendo-nos acreditar que somos livres. Nunca fomos impedidos de sair do país, como acontece em Cuba, porém, a desigualdade social nos prende nesse solo. Não houve perseguição declarada contra quem quisesse passear no outro lado do país, como aconteceu na Alemanha da Guerra Fria, mas ainda lutamos pela diversidade racial e de gênero em posições e espaços que deveriam ser de livre acesso a todos. Quantas mulheres existem em cargos de liderança das maiores empresas? Quantos amigos negros você tem?

Recentemente, vi o filme alemão “Ventos da Liberdade”, baseado em uma história real de uma família que tentou fugir da Alemanha Oriental em um balão, dez anos antes da Queda do Muro de Berlim. Quando saí da sessão, vi um casal comentando sobre o filme e um deles criticou: “Eles não tinham nenhuma ideologia. Só queriam sair porque queriam”. Precisa de alguma ideologia para querer ser livre? Ter consciência de que não se é livre talvez seja a única atitude necessária para nos conduzir à liberdade. A liberdade é a própria ideologia.

Ninguém é 100% livre vivendo em sociedade. E, para os que se orgulham em dizer que gostam mais de cachorro do que de gente, arrisco dizer que ninguém é 100% livre em nenhum lugar, nem morando no meio do mato. Mesmo assim, a liberdade não é utópica.  Conquistamos pequenas liberdades diárias, às vezes grandes liberdades de tempos em tempos. Quando nos descobrimos seres não-livres, nos libertamos do aprisionamento da ilusão da liberdade. É fascinante essa abstração concreta, essa realidade impalpável, essa contradição almejada da liberdade, esse sonho possível.

Foto: Poster do filme “Ventos da Liberdade”, que entrou em cartaz em 7/11/2019

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