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Nunca fui uma boa pessoa

Nunca Fui Uma Boa Pessoa

Nunca fui uma boa pessoa. Afirmo a você. Não seguro os pertences de ninguém no ônibus. Não cedo o lugar. Não dou bom dia nem desejo bom dia a ninguém.

Minha vida se resume ao meu trabalho, à minha rotina. E a rotina é um prato de arroz insosso que enche a barriga, mas não satisfaz o paladar. Acordo cedo, tomo ônibus cheio, tenho um trabalho pesado. Vivo e revivo isso, e vivo para reviver isso.

Das minhas tarefas diárias, a última é a pior. Digo a você: não sei o que passa. É a única pessoa que me sobrou, é o elo que tenho com minha esposa (se foi cedo, Deus a tenha!) e depois de tantos anos, ainda não aprendi a lidar com ele.

A saída do trabalho não me traz alívio. Nem sei se deveria trazer, pois o trabalho não deveria ser algo desgastante que nos obrigasse a buscar alívio. Todo dia sigo, pontualmente, para lá. O caminho, curto, é longo. Penso e percebo que penso sempre nas mesmas coisas, na minha rotina, esse arroz sem graça.

Não preciso mais apresentar os documentos no internato, já me conhecem bem. É engraçado dizer isso porque eu tenho dúvidas se me conheço, quem dirá um terceiro. Nos conhecemos? No horário que chego, estão o alimentando. Meu filho. As cuidadoras me atualizam diariamente com as mesmas informações, num ciclo totalmente programático.

Não sei como me conectar com ele. Médicas, terapeutas e mais gente estudada me dão uma lista interminável de orientações, conselhos e prédicas. Ouço, mas não dou ouvidos. Fico um tempo, me levanto e parto. Parto.

Desde que minha mulher se foi desta para melhor (que frase ridícula), perdi o interesse pela vida. Sinceramente não sei que interesses tive. Sempre vivi, melhor, sobrevivi sem perceber que passei minha vida fazendo as mesas coisas, pensando sobre as mesmas coisas, dia após dia. Só me percebi como gente quando um pedaço de mim foi entregue a um caixão. Durante o luto eu fui alguém. Depois voltei a ser eu mesmo.

Mandei meu filho para o internato. Como cuidaria dele? Trabalho, poucos recursos, nenhum apoio. Eu não o conhecia. Não o entendia. Meu filho. Tinha apenas 3 anos quando o deixei lá. Agora já é um adolescente e, para mim, ainda uma criança. Nunca fiz festa de aniversário, os presentes foram protocolares, não o levei para viajar, estudar, brincar, nunca fui um pai de verdade.

Tenho rótulos, vários deles: frio, insensato, cretino, má pessoa. Os mereço. Mereço? O que você precisa entender é que, em um julgamento de ausentes, o veredito só pode ser vazio. Onde estão todos? É fácil criar uma mensagem e não se responsabilizar por ela.

Uns questionaram se não respeitava a memória da minha esposa e se não pensava no futuro do meu filho. Pensava sempre nas mesmas coisas. Não quis dar uma resposta, não me preocupo com os outros, mas pensei. Por que as pessoas têm apego ao passado? O que foi, foi. Eu sempre fiz as mesmas coisas e não há como mudar. E por que, também, as pessoas se preocupam tanto com o futuro? O futuro é uma ideia. Ele não existe, o futuro não existe.

Houve ontem: fim.
Hoje há
e amanhã, quem saberá?

Meu filho. Vocês não sabem o choque que é descobrir como um maldito cromossomo muda tudo. TUDO. Onde está o dinheiro para o tratamento? Família do bem vai ajudar ou rezar? Há literatura médica, técnica, mas quem olha nos seus olhos e diz o quanto vai ser difícil? Quem te encara nos olhos e diz que vai doer? Não no passado, nem no futuro: já! Dói.

Um cromossomo. Um é pouco, um é TUDO. Imagine-se em uma estrada. Rápido. Um pneu, uma falha. A vida é frágil. Não há controle sobre as escolhas do destino. Algo vai mudar. E agora?

Eu olho nos olhos daquela criança. Eu sinto raiva, uma raiva descontrolada. Não pela sua condição, que culpa teria?, mas justamente por não conseguir amá-lo. Melhor: por não conseguir dizer que o amo. Amo–o, amo.

Seus olhos não têm rotina. Seus olhos são vida, eles me chamam. Me sinto covarde. Seus olhos me lembram que nada sou, não sou um pai, não tenho ninguém, só sou rotina e pensamentos iguais. Sou protocolo.

Meu filho não fala, não anda. Ele é tudo. É passado, futuro e presente. É TUDO. É um pedaço desconhecido de mim, é um pedaço da única coisa que me sentiu ser gente. É o acaso, é estatística, probabilidade. Fé?

Um dia, indo ao seu encontro, chovia. O vidro do ônibus refletia minha imagem. Me vi, vivi. Tantas coisas ficaram, pude ser tanto e fui só o aquilo que desconheço. Deixei que a rotina fosse a minha vida. Tive poucas escolhas, mas tive escolhas. E fui o protocolar, fui pouco, fui eu e só.

Eu vejo meu filho e ele não é como eu. Para sociedade, ele é um cromossomo errado. Para mim, ele é tudo o que eu não fui. Eu vejo o sorriso dele e quase tenho certeza que é possível mudar o passado, que é possível construir um futuro que não existe. Eu olho para ele e tenho vontade de sê-lo. Eu sei que ele ama, me ama me.

Ainda assim, cumpro rituais. Eu opto por escutar terceiros. Eu tenho vergonha de ter o filho que tenho. Eu não fico além do horário, não chego antes, não faço nada que saia da rotina…

Um dia, enquanto ia para o internato, eu vi uma mãe e um pai, pobres, com uma criança com Síndrome de Down. Eles faziam tudo aquilo que eu queria fazer. Não havia rotina: era um caleidoscópio de alegria. Havia cores, músicas e amores. Havia o presente. Havia.

Desci do ônibus. Olhei. Enxerguei. O pouco de dinheiro permitiu que eu comprasse uma correntinha com os dizeres AMO AGORA. Ele estava comendo quando cheguei. Eu beijei sua testa. Nunca havia sentido o cheiro do seu cabelo. Seus olhos eram só amor. A cuidadora começou a falar as informações de sempre. Não dei ouvidos. Tirei o colar do bolso. Meu filho, meu filho riu. Odeio aquele riso.

Ele sorriu.

Eu pensei em segurar o choro para o futuro, mas então ele não existiria. Eu tinha que chorar ali, agora.

Não dou bom dia. Não desejo um bom dia.

Sou rotina.

Protocolo.

Meu filho.

De novo, percebi que sou alguém, além de mim mesmo. Eu coloquei a correntinha em seu pescoço. AMO AGORA. Pela primeira vez, ele não estava sorrindo aquele sorriso odioso. Ele chorava. Ele esticou os braços em meu sentido, ele me – queria – me. Eu não o conhecia, eu não sabia lidar com ele. Abracei meu filho. Eu chorei, com ele, ali, no presente. Não existe o futuro. Não se muda o passado. Meu filho destruiu minha rotina. Ele me destruiu. Eu sou coisa nova. Ele tinha o cheiro da minha esposa, tantos anos, nunca senti aquele aroma. O calor. Era tanta vida emanando. AGORA.

Meu filho me deu um beijo e deitou nas minhas pernas. Eu entendi. Ficamos, juntos, naquele dia o tempo que nunca ficamos a vida toda. Eu me transformei em algo que nunca pensei que pudesse ser. Eu era, Pai. Ele pediu outro abraço com os braços tortos, julgados, meu filho…

Fui embora. Sabia que o enterro não seria barato para uma pessoa pobre como eu. Já não me preocupava com as coisas de sempre. Virei coisa nova. Eu, pai, que nunca fui uma boa pessoa.

Photo credit: Faso Productions, Inc. on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

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