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Pareidolias

Pareidolias

O que não vive emite tamanha potência que há de se desconfiar da inanidade das coisas. Na cidade grande tudo se movimenta, se constrói, se transforma. Possível não é; sem vida não se faz. É preciso de alma para viver? Quem sabe…

Brotava tristeza dali. Perambulava por aquela praça não sei dizer há quanto tempo, com olhar perdido em 3 ou 4 pontos. Demorei muito para puxar conversa. Que estranho é isso. Dias e mais dias ensaiando um “olá, quer um café?”, coisa tão corriqueira, mas que demanda uma coragem maior do que efetivamente temos.

Pegou o café e me agradeceu abaixando levemente a cabeça. Tomou-o em goles longos, pausados, verdadeiramente apreciando a bebida quente. Não falou uma palavra. Tomei coragem e fui direto ao ponto: qual a sua história?

“Andasse léguas e léguas e não se tromba em casa alguma. A vastidão é tamanha que o tempo parece imóvel. Paz e desespero coabitam naquela esquecida região. Não deixei nada para trás. Não há muito de onde venho. Trouxe comigo o suficiente para chegar aqui e algumas poucas lembranças. Me apontaram um caminho, alertando ser a única possiblidade. O pouco que tinha me bastava, de onde venho é assim: só temos o que temos e é isso. E do que precisamos? De onde vim, de praticamente nada; já aqui se quer de tudo. O que eu quero? Só o que eu tinha, mas não é mais possível. Então, não quero coisa alguma, porque nunca quis. Andei por meses. De mãos dadas com o desespero. Com o meu e o de muita gente. Os poucos sobreviventes andavam na mesma direção do que eu. Alguns decidiam abraçar a própria paz, deitavam-se, faziam pequenas rezas, olhavam para o céu, pediam ajuda para deixar a roupa alinhada. Iam-se. Outros preferiam se sentar, comer o que lhes restava, pediam que lhes fizesse companhia, jogar conversa fora e rir um pouco, deixar a alma vazar pelo sorriso, ir encontrar sossego após uma última risada. Há quem só trocasse olhares e se mantivesse sozinho e, ao perceber que havia chegado o momento, simplesmente ia para onde quer que fosse, mandando seu adeus pelo vento. Sempre imaginei se as almas das pessoas se decompõem igual aos corpos. Parece ideia descabida, mas morrer, como morremos, é ideia lógica? Virar adubo? Se houver alma, pode ser que ela pereça. Teve um dia de forte chuva. Eu passava ao lado de um caudaloso rio. Pedaços de galhos e troncos boiavam na água barrenta. Eu olhei e vi um corpo. Era um rosto conhecido de um andante que encontrara dias atrás. Não sei se era um corpo, mesmo. Talvez fosse a alma do coitado se decompondo. Talvez ele tenha virado um tronco. Quem sabe… Tive vontade de correr para conferir o que realmente era. Importaria? Apenas segui andando, mirando a direção apontada. Não tenho certeza quanto tempo levei para avistar as primeiras luzes daqui. Fiquei aterrorizado. Era a imagem que tinha das histórias do Apocalipse. Na verdade, pode ser que o Apocalipse seja assim. Fiquei alguns dias parado em uma serra, observando o emaranhado de cimento. Meus pais me contavam histórias. Meus irmãos e eu passávamos horas brincando nas cidades que criávamos em nossas cabeças. Enquanto estava ali, olhando, recriei as brincadeiras. Deu alegria pequena. Saí andando para a cidade. Entrei por um lugar com tantas casas que era capaz de povoar várias vezes minha terra natal. Aliás, a gente que vi se parecia comigo. As casas estavam tão amontoadas que mal passava chuva. Me sentia preso. De certo estava. Como sabemos se somos livres? Ninguém me impediu de estar ali. Só que eu não queria estar ali. Vim por ser o que me restou. Isso é liberdade? Vaguei uns dias por entre os becos. Vi coisas horrorosas. Não falei com ninguém, minha vontade de falar com as pessoas ficou em algum ponto da minha romaria. Estava na cidade prometida, mas ela não era nada igual às minhas brincadeiras. Andei seguindo luzes mais fortes. Estrelas não havia. Em um mesmo dia calor, frio e chuva. Na cidade grande tudo é intenso. E no meio de tanta coisa acontecendo, havia nada para mim. Eu não tinha o que fazer. Lembrava. Olhava para o céu procurando algum vestígio de onde eu vim. Do que eu fui. O que eu era? Nesta cidade as pessoas estão sempre alerta, sempre ocupadas, só que não fazem nada. Só correm. O tempo parece não dar conta de tanta gente. Ninguém repara na beleza das coisas. Cheguei até aqui. Mirei aquele tronco esparramado por entre as árvores. Era o corpo do rio. O mesmo. Como teria vindo para cá? Não quis perguntar, perdi a vontade de me comunicar. É difícil puxar conversa com estranho, repare. Mirei para o outro lado. E vi. A pedra. Aquela. Meu pai. Me olhava. Era como se estivesse me dando a bênção por ter chegado à terra de tantos causos. Permanecia sereno. Não dei sobressaltos, poderia afugentá-lo. Meu pai. O corpo do rio. Têm alma, as coisas? Resolvi me estabelecer por aqui. Entendo que este é o lugar das minhas histórias. Passei a perambular e observar. Ninguém me notava. E assim é que deve ser: o afastamento é necessário. Um dia fazia muito calor. Sentei-me em um canto onde nunca havia ido. Mirei uma estátua pequena, mal posicionada naquele espaço, e vi: minha mãe. Imóvel. Na posição em que se encontrava, não poderia ver meu pai. O mesmo se passava com ele. O importante é que estávamos próximos. Deu pequena alegria. Ninguém nos via. Via? Não fui falar com ela. Às vezes observar é mais importante do que conversar. Um dia veio uma chuva muito forte. Descobri que a cidade grande enche como rio. É barrento e sujo. Subi em uma escadaria para me abrigar. Minha mãe estava bem, a água não a cobria. Meu pai estava coberto, mas era forte, o homem; a pedra. E então vi. O corpo, tronco, alma. Pegou seu caminho no rio artificial. Chegou lá assim? Quem sabe… Quem sabe um dia nademos pelas mesmas águas. Comecei a pensar que o que me mantinha vivo na cidade grande era o amor. O amor pelas lembranças. Não sei se amava a pedra ou a estátua, sei que amava o que nelas via. Eu tinha meus pais e meus irmãos e eu os amava sem saber de onde vinha todo aquele amor e nós nunca nos perguntamos de onde vem o amor, apenas o aceitamos; mas quando começamos a perder as pessoas que amamos nós começamos a questionar o porquê de amar se uma hora esse amor terá de ser interrompido e, então, percebemos que o amor jamais é interrompido: ele é maior do que a vida, o que acaba é a vida, vira adubo, e o amor permanece, fica nos objetos, nas fotos, nos odores, nos sons, nas memórias e ele não acaba; ele causa dor, ele nos derruba e então nos levanta, e nos transporta para fora do mundo e nos indica direções, e nos faz caminhar e perder a noção do tempo, e nos faz sobreviver em meio a desgraça humana e nos traz de volta o que foi importante, e nos damos conta que não somos nada além de amor; estamos aqui para amar, nem que seja um pouco: e do que precisamos? De amor e lembranças e praticamente mais nada. Não sei ao certo quando meus irmãos apareceram por aqui. Estão sempre juntos. Sempre estivemos juntos. Estamos aqui, todos, nós, na cidade grande. Nos comunicamos em silêncio. Os vejo. A cabeça da gente dá um jeito de manter nosso amor vivo. Eles estão aqui. Quando nos sobra nada, o amor se manifesta de diversas formas. Não sei dizer a quanto tempo estou aqui. Estava aguardando, apenas. Veja: a chuva vem vindo. O rio vai se formar. Poderia me dar o seu café, também? Não sei dizer há quantos anos não bebia um café. Estava te esperando. Em algum ponto da minha romaria eu perdi o interesse em me comunicar, mas eu te aguardava. Logo o rio vai se formar. Minha família está feliz, olhe! O nosso sonho era de uma vida feliz aqui e por aqui ficaremos, todos. E quando você estiver triste, ou feliz, tanto faz, se sente aqui, tome um café e olhe ali naquele ponto. Eu estarei lá. O rio está enchendo. Chegarei ao meu destino. Não entre neste rio, ainda não chegou seu tempo. Estamos prontos! Vamos nadar pelas mesmas águas que aquele corpo, tronco. Minha alma (se houver) vai ficar aqui! Lá vem o rio! Não corra tanto, observe a beleza das coisas. Tudo o que você ama está em algum lugar, você vai ver. Vá, não se molhe, obrigado pelo café”!

Photo credit: Johnson Cameraface on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

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